Ao contrário de seu predecessor, “Zé da Guiomar”, coalhado de standards do cancioneiro nacional, “O Samba Tá” fia-se noutro ponto de equilíbrio, em um sensível [e bem-sucedido] esforço de afirmação autoral, com a predominância de letras próprias e arranjos envolventes [assinados pelo próprio grupo], plenos de sutilezas.
De uma singeleza flagrante, suas músicas acenam para a busca da felicidade de um mirante posicionado entre a sobriedade e a melancolia, seja para dançar miudinho, enlaçado [em temas como “Proposta”, que abre o disco], ou arrastar a sandália, na samba-roqueira [e matadora!] “Nega de Obalu-aê” [um delicioso Wando sambista, na mais tenra idade] e na sambatuqueira “Cinzas”.
O vocalista Márcio Souza e o cavaquinista Valdênio assumem com determinação a veia compositora, antes apenas esboçada em “Destino”, no disco anterior. Desta vez, a dobradinha se repete em “Solidão”, mas desdobra-se individualmente, no caso do primeiro, em “Rosa na Janela” e, no caso do segundo, em “Proposta”, “O Teu Perdão”, “Dizendo Adeus”, “Cinzas” e “Faltou Dizer” (esta última, em parceria com Fernando “Tatu” Tolomelli).
As dores de amores escorrem pelas paredes em 11 das 13 faixas do CD. As exceções estão na faixa-título, “O Samba Tá”, guitarreira e rascante, num dueto de Márcio Souza com o seu autor, Deco Lima [velho lobo da cena indie mineira e dono de um dos bares musicais históricos da cidade, o Pastel de Angu]: “O samba tá na fala, tá na língua, tá na boca do povo/ o samba tá no verso, no gesto, poeta do morro/ eu sambo pra lembrar que não há nada de novo/ eu sambo pra esquecer que a corda está no pescoço”.
E em “Vai com Deus”, de Cris Vianna e Pedro Portela, que aposta na força interior como combustível de melhores dias [“Confiando só em Deus, sem agir, não vai dar não/ o milagre dessa gente que procura a salvação/ só a reza não resolve, é preciso ter ação/ porque você não dá uma mão”].
“Proposta”, que abre o disco, já demarca o degradé de sentimentos que trespassa este trabalho, numa paleta de cores que vai do melancólico ao esperançoso: [“Para que sofrer, amor?/ saudade/ enche o nosso peito de dor/ viver tão sozinho assim, é maldade/ não se acha tão fácil um grande amor”.]
Compositor temporão, gravado pela primeira vez neste disco, o barbacenense radicado em Beagá Ronaldo Batista assina duas das letras mais incisivas e cortantes: “Sinceridade” [“Quando um sonho perde a força que ele tem/ e a incerteza vem morar no coração/ é melhor sentir a dor de uma saudade/ que ficar vivendo de ilusão”] e “Vingança” [“Mas se um dia o arrependimento/ quiser te fazer voltar/ eu, mesmo no sofrimento/ não posso te perdoar”].
O doce-amargo tormento do amor, excitante e hesitante, contraditório como ele só, ganha síntese luxuosa no clássico “Me Deixa em Paz”, de Monsueto e Airton Amorim. Registrado originalmente por Linda Batista em 1951 e, desde então, regravado aqui e acolá [por nomes tão diversos quanto Milton Nascimento e Ana Carolina] dá novamente sinais de atemporalidade e permanência: “Se você não me queria/ não devia me procurar/ não devia me iludir/ nem deixar eu me apaixonar”.
“O Samba Tá” é, enfim, uma declaração de princípios em defesa do mais elementar: estar bem consigo [tranqüilo e bem acompanhado] faz a diferença sim. Parece tão simples e tão pouco... Mas não é este pouco [tão tudo!] que qualquer um de nós persegue, afinal?!
Valdênio e Márcio Souza voltam à carga para o seu veredito, desta feita em “Solidão”:
“Solidão chegou/
foi no auge da tristeza me apanhar/
e eu já não suporto dor/
quero logo outra alegria/
pro meu coração sonhador”.
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Israel do Vale |